O confucionismo sempre foi um tema delicado para os católicos, com a Igreja levando séculos para esclarecer sua posição sobre os ensinamentos de Confúcio e seus discípulos. Nos dias 4 e 5 de agosto, o Dicastério para o Diálogo Inter-religioso do Vaticano organizou o seu primeiro colóquio confuciano-cristão Em Seul, Coreia do Sul, com a participação de cerca de 150 pessoas de mais de dez países, discutindo valores como fraternidade universal, liderança ética e formação moral em sociedades pluralistas.
No entanto, a relação entre a Igreja e o confucionismo era bastante diferente há três séculos. Católicos Na China que participassem de rituais em homenagem a Confúcio poderiam ser considerados como tendo abandonado a fé. As cerimônias eram mais do que simples gestos; eram baseadas em "Lǐ (礼)", que se refere a ritos e à propriedade ritual, essenciais para a filosofia confuciana, que busca moldar a pessoa, organizar relacionamentos e manter a coesão social.
Confúcio, conhecido em chinês como "Kǒng Fūzǐ (孔夫子)" e que faleceu em 479 a.C., teve seu nome latinizado por missionários que chegaram à China muito tempo depois. Em 1582, o padre Matteo Ricci observou que chineses educados acendiam velas e se curvavam diante de Confúcio. Ricci, um jesuíta, acreditava que esses rituais eram civis, enquanto dominicanos e franciscanos sustentavam que as prostrações e o ambiente do templo eram indissociáveis da adoração religiosa.
Essa controvérsia, conhecida como a disputa dos ritos chineses, transcendeu a mera discussão sobre rituais, envolvendo também a autoridade imperial. O culto a Confúcio estava intimamente ligado aos imperadores da China, que alegavam governar por meio do Mandato do Céu, e a realização dos ritos era fundamental para que funcionários e estudiosos pudessem ocupar posições de poder ou conquistar diplomas. Assim, a orientação dada aos católicos para se afastarem desses rituais representava uma intervenção de uma potência estrangeira na legitimidade chinesa.
O encontro realizado Em Seul foi o terceiro evento de uma série que inclui um grupo de estudo e um workshop na Universidade Católica Fu Jen, em Taiwan, que visavam estabelecer diretrizes formais para o diálogo entre as duas tradições. Os participantes já têm agendadas novas reuniões na Indonésia em 2028 e em Hong Kong em 2030.
Durante o evento, o cardeal George Jacob Koovakad destacou que as tradições cristã e confuciana compartilham pontos de convergência e ao mesmo tempo apresentam diferenças em suas fundações. Matteo Ricci expressou essa relação de maneira simples, afirmando que "antes de entrar em amizade, é preciso observar; depois de entrar, é preciso confiar."




