No início do século XXI, a vida cotidiana parece ter se libertado das amarras da gravidade, com amizades e interações sociais migrando para o universo virtual. Nesse espaço, avatares tomam o lugar de rostos, enquanto stories substituem conversas autênticas, e a validação se torna uma métrica quantificável, representada por corações e polegares para cima. Contudo, ao aplicar a crítica materialista proposta por Terry Eagleton em obras como "The Idea of Culture" (2000) e "Materialism" (2016), essa aparente leveza se desfaz, revelando um panorama mais sombrio e corporeificado.
A provocação central do materialismo cultural é a pergunta sobre os corpos que estão sendo afetados enquanto essa cultura digital se desenvolve. O mundo virtual, longe de ser um espaço etéreo, se configura como o epicentro de um novo tipo de imperialismo, onde as Big Techs exercem controle e exploração sobre indivíduos de maneira invisível. A cultura digital, nesse contexto, se transforma em mercadoria e instrumento de controle, refletindo um sofrimento psíquico que denuncia a negação do corpo.
Eagleton, ao abordar o materialismo somático, suscita uma crítica ao conceito de desmaterialização. A nuvem, frequentemente vista como uma entidade etérea, na verdade, é composta por corpos reais que enfrentam consequências diretas dessa nova realidade. Crianças e adolescentes, por exemplo, sacrificam sua saúde física em troca da interação virtual, enquanto moderadores de conteúdo no Sul Global lidam diariamente com imagens traumáticas para manter a experiência dos usuários do Norte intacta. Além disso, trabalhadores em minas de lítio e coltan enfrentam condições desumanas, sustentando a infraestrutura tecnológica que utilizamos.
A fragilidade dessa geração, marcada pela exploração, se manifesta como um grito que não pode ser ignorado. O corpo humano resiste em lembrar que não é apenas um avatar digital, e que a validação online não oferece conforto ou cura. Para Eagleton, a busca pela libertação começa quando os indivíduos se afastam da hipnose das telas e começam a sentir as necessidades humanas básicas, como fome, cansaço e a urgência de um contato físico.
A proposta é que, ao retornarmos a uma cultura que acolhe o corpo como parte fundamental da existência, possamos transformar o ambiente digital em um espaço mais humano. Essa mudança permitiria que a tecnologia fosse utilizada para promover o florescimento material e espiritual de todos, especialmente das gerações mais jovens e vulneráveis, criando uma casa comum em vez de um feudo digital.




