A Associação Bíblica Católica da América fez história ao eleger a acadêmica judia Amy-Jill Levine como sua nova presidente, um feito inédito para a organização. Especialista em Antigo e Novo Testamento, Levine tomará posse em agosto de 2026, iniciando um mandato de um ano. A escolha reflete um avanço no diálogo entre diferentes religiões e na colaboração acadêmica para a interpretação das Escrituras Sagradas.
Tradicionalmente, a presidência da associação é ocupada por católicos, mas Levine se destaca como a primeira judia a liderar o grupo. Ela também foi a primeira a ensinar o Novo Testamento no Instituto Bíblico Pontifício, em Roma. O foco de sua gestão será a melhoria da educação bíblica nas paróquias e o apoio ao desenvolvimento de novos pesquisadores. A acadêmica expressou que sua nomeação foi uma surpresa, mas vê isso como uma chance de utilizar sua experiência para enriquecer o trabalho da associação por meio de debates e cooperações internacionais.
Levine ressaltou que seu objetivo não é desafiar as doutrinas católicas, mas oferecer interpretações que ajudem a entender o contexto histórico dos textos. Ela acredita que a visão acadêmica de Jesus falando aramaico e os textos originais em grego podem coexistir com a fé cristã. A estudiosa enfatiza que compreender a prática judaica da época de Jesus é essencial para evitar distorções sobre sua figura e ensinamentos, buscando sempre tratar as passagens autoritativas com respeito acadêmico e religioso.
O plano estratégico que Levine pretende implementar inclui a expansão de programas bilíngues e a criação de novos materiais didáticos voltados para clérigos e educadores. Um dos pilares de sua gestão será levar o conhecimento acadêmico para as igrejas locais, ajudando a estabelecer diretrizes atualizadas tanto para a pregação quanto para a formação da fé. Além disso, ela planeja colaborar com o Comitê de Assuntos Ecumênicos e Inter-religiosos dos bispos americanos, com o intuito de combater o antissemitismo e promover o respeito mútuo entre os fiéis que compartilham textos sagrados, mas que possuem diferentes interpretações.
Crescendo em um bairro católico, Levine desenvolveu desde cedo um interesse pela Igreja, embora também tenha enfrentado preconceitos por sua origem judaica. Um episódio marcante de sua infância, quando foi acusada por uma colega de ser responsável pela morte de Jesus, a motivou a estudar o Novo Testamento. Atualmente, sua missão é transformar as passagens bíblicas em pontes de amor, ao invés de ferramentas de ódio. Seus livros, como "A Bíblia Com e Sem Jesus", buscam esclarecer a lógica de cada tradição religiosa, promovendo o entendimento de que Jesus estava inserido no contexto da lei e da ética judaicas.




