Agências de inteligência ao redor do mundo têm recorrido à compra de dados pessoais coletados por empresas privadas, uma prática que tem se intensificado nos últimos anos. Esses dados incluem informações detalhadas sobre localização, hábitos de navegação e perfis comportamentais de cidadãos. Esse mercado permite que órgãos de espionagem acessem informações sensíveis sem a necessidade de mandados ou autorização judicial, utilizando como canal o sistema de publicidade online que sustenta grande parte da internet.
A situação se torna ainda mais alarmante com o avanço da inteligência artificial, que possibilita a análise e cruzamento de bilhões de registros de forma automatizada. Um estudo realizado por pesquisadores de segurança na Alemanha, envolvendo 11 reguladores de agências de inteligência europeias, revelou que o uso de dados publicitários para vigilância representa uma mudança significativa nas operações dos serviços secretos. Além disso, a pesquisa constatou que, em muitos países, essa prática ocorre com pouca ou nenhuma regulação.
O processo de coleta de dados se inicia quando um usuário acessa um aplicativo ou site que contém anúncios. Antes mesmo de o anúncio ser exibido, o sistema de publicidade online coleta informações sobre o usuário, como sua localização, tipo de dispositivo, endereço de IP e interesses. Esses dados são enviados em milissegundos para empresas que desejam adquirir o espaço publicitário, em um sistema conhecido como leilão em tempo real. Embora as informações sejam destinadas à empresa que vence o leilão, outros participantes também podem ter acesso a esses dados, mesmo que não adquiram o anúncio.
A Fundação Fronteira Eletrônica (EFF) destacou que diversos participantes do leilão podem receber as informações simultaneamente, o que levanta questões sobre a privacidade dos cidadãos. Essas informações, que normalmente exigiriam um mandado judicial para serem obtidas, estão sendo acessadas de maneira mais fácil e rápida pelas agências de inteligência.
Recentemente, a discussão sobre essa prática ganhou destaque durante o debate sobre a renovação da Seção 702 da Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira, conhecida pela sigla FISA. Durante esse processo, um grupo de parlamentares de diferentes partidos, incluindo Warren Davidson, Mike Lee, Zoe Lofgren e Ron Wyden, buscou incluir a proibição da compra de dados como um requisito para a renovação da lei, visando proteger a privacidade dos cidadãos.
Entretanto, essa proposta enfrentou resistência da Casa Branca e do presidente da Câmara, Mike Johnson, que defendiam a renovação da lei sem modificações. A tentativa de integrar as pautas não obteve sucesso, resultando na aprovação da continuidade da Seção 702 da FISA sem que a brecha para a compra de dados corporativos fosse fechada. A situação continua a gerar preocupações sobre a proteção da privacidade e os limites da vigilância estatal.




