Mato Grosso do Sul enfrenta um desafio significativo com a redução da população de ovinos pantaneiros, com menos de 400 exemplares conhecidos em rebanhos controlados. A falta de um mercado que proporcione renda aos criadores coloca esse grupamento genético em risco de extinção. Para contornar essa situação, pesquisadores da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) estão propondo a transformação do leite desses animais em produtos derivados de alto valor agregado, visando tanto a conservação da espécie quanto a ampliação dos rebanhos.
Considerados adaptados às condições adversas do Pantanal e do Cerrado, os ovinos pantaneiros apresentam uma série de características que se desenvolveram ao longo de gerações. Tais animais possuem uma resistência notável ao calor, períodos de seca e cheias, além de serem menos suscetíveis a enfermidades e verminoses, o que resulta em uma menor necessidade de medicamentos e insumos especiais, frequentemente requeridos em raças de ovinos importados. Fernando Miranda de Vargas Junior, coordenador da pesquisa e doutor em Zootecnia, destaca a importância de uma genética que responda rapidamente às mudanças climáticas, e vê os ovinos pantaneiros como uma alternativa viável.
A proposta de investimento no leite de ovinos pantaneiros é fruto de 22 anos de pesquisas que tiveram início em 2004. Durante esse período, Fernando Miranda e Charles Martins conduziram um levantamento em propriedades do Pantanal, o que culminou, em 2006, no primeiro registro científico comprovando que esses animais possuíam características genéticas únicas e distintas das demais populações de ovinos no Brasil. Desde então, a pesquisa gerou mais de 30 dissertações, 10 teses e cerca de 50 artigos científicos focados em aspectos como genética, reprodução, carne, couro, lã, leite e adaptação dos ovinos.
Além da exploração do leite, os pesquisadores da UFGD também buscam formas de aproveitar integralmente os ovinos pantaneiros. As iniciativas incluem o desenvolvimento de sabonetes a partir da gordura ovina, investigações sobre a utilização da lã em estruturas como concreto e telhas de cimento, e estudos para seu uso como cobertura biodegradável do solo na agricultura. Os resultados apontam para benefícios como a redução da temperatura do solo, maior retenção de água e melhoria das condições microbiológicas, abrindo novas possibilidades para um aproveitamento sustentável da produção.
Fernando Miranda enfatiza que todas essas iniciativas têm como objetivo criar valor econômico para um patrimônio genético que se desenvolveu ao longo de gerações no Pantanal. Ele acredita que ainda há muito a ser explorado e estudado sobre o ovino pantaneiro, indicando a continuidade e a relevância das pesquisas nesse campo.




