A última vez que a República Democrática do Congo participou de uma Copa do Mundo, o país era conhecido como Zaire. Em 1974, a seleção protagonizou um dos episódios mais curiosos da história do torneio, em uma partida contra o Brasil. Com o time brasileiro já vencendo por 2 a 0, uma falta na entrada da área parecia ser a oportunidade ideal para Rivelino ampliar a vantagem. No entanto, enquanto o jogador se preparava para a cobrança, um defensor da equipe africana quebrou a barreira e chutou a bola para longe. Essa ação gerou confusão tanto entre os brasileiros quanto entre os zairenses, levando o árbitro romeno Nicolae Rainea a interromper o jogo e a advertir Mwepu Ilunga com um cartão amarelo.
A pergunta que pairava no ar era: "Por quê?" O lance foi frequentemente interpretado como um erro técnico ou uma falta de disciplina, mas essa visão parecia simplista. Mwepu Ilunga não era um novato no futebol; era um jogador experiente, campeão africano e parte integrante da seleção desde o início da década de 1970. Em entrevista à BBC, em 2010, Ilunga afirmou que conhecia bem as regras e que sua ação foi intencional. Para compreender o que ocorreu naquele dia na Alemanha Ocidental, é necessário analisar o contexto político e social da época.
Naquela época, Zaire estava sob a ditadura de Mobutu Sese Seko, que governava desde 1965 e utilizava o esporte como uma ferramenta de propaganda. Em 1971, Mobutu rebatizou o país, transformando-o em Zaire. Três anos após a mudança do nome, o ditador celebrou a classificação da seleção para a Copa do Mundo como uma conquista pessoal. O feito era significativo, pois Zaire se tornava o primeiro país da África Subsaariana a participar do Mundial.
Antes da viagem para a Alemanha, os jogadores foram recebidos por Mobutu, que fez promessas grandiosas de recompensas, incluindo casas, carros novos e prêmios em dinheiro. Contudo, a pressão para apresentar um bom desempenho era intensa, e o medo de uma nova humilhação com um possível terceiro gol brasileiro pairava sobre a equipe. Essa situação pode ter influenciado a atitude impulsiva de Ilunga, que, além de ser um atleta, estava sob a pressão de um regime que não aceitava fracassos.
Após a partida, a seleção retornou ao país sem as punições que temia. Porém, as promessas de Mobutu nunca se concretizaram. Os jogadores voltaram para casa sem os carros, casas ou recompensas financeiras que haviam sido prometidas. Com o passar do tempo, muitos deles enfrentaram dificuldades financeiras e foram esquecidos pelo governo que antes os celebrava. Alguns deixaram Zaire, buscando uma nova vida em outros lugares, enquanto outros faleceram longe dos holofotes.
Mwepu Ilunga foi um dos jogadores que tiveram um destino triste após o futebol. Em 2015, antes de sua morte, ele lamentou a trajetória de sua vida após o esporte, revelando que, se tivesse a chance, teria preferido se dedicar à agricultura, em vez de ter sido parte de um regime que explorou sua imagem no futebol.




