Um levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado revelou que a violência armada na cidade de Salvador, entre 2023 e 2025, afeta desproporcionalmente áreas com maior concentração de população negra e de baixa renda. O estudo, intitulado "A Geografia da Exposição: Disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador", foi divulgado nesta quinta-feira (13) e analisa o impacto dos tiroteios nas escolas públicas da capital baiana.
Durante o período de análise, foram registrados 3.748 disparos de arma de fogo, o que representa uma média de 3,4 ocorrências diárias. Desses, 59% (totalizando 2.206 tiros) ocorreram em dias letivos, e 40% dos incidentes aconteceram durante o dia, momentos em que a movimentação de estudantes é intensa, como na entrada, saída e recreio. Essa constatação contradiz a ideia comum de que a violência se concentra apenas em horários noturnos.
A pesquisa ainda identificou que cerca de 70% dos tiroteios ocorridos em dias de aula estão relacionados a intervenções policiais (37,4%) e a homicídios ou tentativas (32%). Analisando os dados sob a perspectiva socioeconômica e racial, o estudo apontou que apenas oito dos 163 bairros de Salvador concentraram quase 20% dos tiroteios no período analisado. Nesses bairros, a população não-branca (preta, parda e indígena) supera 83%, com um bairro atingindo quase 93% dessa demografia.
Além disso, a renda média per capita em seis desses bairros é inferior a R$ 900, o que representa pouco mais da metade do salário-mínimo. Os locais mais afetados pela violência incluem Beiru/Tancredo Neves, Pernambués, Fazenda Grande do Retiro, Lobato, Valéria, Federação, IAPI e Castelo Branco.
O estudo destaca as dinâmicas de desigualdade presentes na capital baiana, evidenciando que as escolas localizadas em áreas com menor renda e maior proporção de população não-branca são as mais expostas à violência. Essa situação exige a adoção de medidas que visem mitigar os efeitos da violência armada na educação, além de promover apoio psicossocial e pedagógico aos estudantes afetados.
Com base nas conclusões, o relatório recomenda que as secretarias municipais utilizem dados georreferenciados e indicadores, como o novo Índice de Risco e Exposição Escolar (IREE), na alocação de recursos e na gestão de crises. As instituições sugerem que a administração municipal garanta uma ação integrada em territórios prioritários antes, durante e após episódios de violência, envolvendo Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde.




