Um grupo de deputados da direita chilena apresentou um projeto de lei que pode obrigar mulheres que buscam realizar um aborto a ouvir a atividade cardíaca embrionária ou fetal antes de proceder com a interrupção da gravidez. Caso a mulher opte por não escutar os batimentos, o médico deverá recusar a realização do procedimento.
Intitulado "Escute seu Coração", o projeto foi protocolado por parlamentares de partidos conservadores, como o Partido Liberal (PL) e os Republicanos, de José António Kast, que é um crítico declarado do aborto e pai de nove filhos. A proposta visa modificar a legislação de saúde do país para que os médicos informem as gestantes sobre a atividade cardíaca antes de realizar o aborto e ofereçam a oportunidade de ouvir o coração do feto.
No Chile, assim como no Brasil, o aborto é permitido apenas em três situações: em casos de estupro, risco de vida para a mãe ou anencefalia fetal. De acordo com a proposta, embora a mulher tenha o direito de recusar a audição dos batimentos, se decidir não ouvir, o médico deverá registrar essa decisão e se negar a realizar a interrupção da gravidez, anotando a recusa no prontuário clínico da paciente.
Os deputados justificam a proposta afirmando que "não pode haver algo menos ideológico do que o batimento cardíaco de um bebê e uma lei que permita que seu coração seja ouvido antes de sua morte". Entretanto, a iniciativa recebeu forte oposição de organizações feministas e de direitos humanos, que a consideraram "cruel" e a definiram como uma "ferramenta de dissuasão ideológica" que visa restringir a autonomia de mulheres e meninas.
Representantes de ONGs de direitos reprodutivos destacaram que a proposta reflete uma tendência observada em setores da direita brasileira, que têm adotado discursos e estratégias de movimentos ultraconservadores internacionais nos últimos anos.
Medidas semelhantes já foram implementadas em 2022 em outros países, como na Hungria, sob o governo de Viktor Orbán, e na região espanhola de Castela e Leão, que é governada por uma coalizão de direita. Além disso, a proposta enfrentou críticas severas da oposição progressista e de ex-ministras das Mulheres de administrações anteriores, que levantaram preocupações sobre os possíveis impactos psicológicos da medida.




