Leitor, leitora, aceitem o convite para (re)ler Dom Casmurro, o sétimo romance de Machado de Assis, publicado em 1900. Nele, topamos com uma narrativa em primeira pessoa, escrita por um sexagenário com longa expertise como advogado. Órfão de pai, desde criança, e criado sob a superproteção de dona Glória, eis que Bentinho é acometido pela desordem dos afetos: Capitolina aparece em sua vidinha regrada e sem-surpresas.
A crítica sugere que há várias maneiras de ler a obra, seja levando em conta os aspectos socioeconômicos; seja observando a construção das personagens; seja percorrendo as partes do Rio de Janeiro em companhia do narrador; seja examinando os artifícios persuasórios no plano da linguagem. Ora, parece haver um componente que unifica essas e outras abordagens da história reelaborada por Bento Santiago: a coexistência de contrastes.
Do ponto de vista socioeconômico, as famílias Santiago e Pádua estão em posições assimétricas. A seu turno, o pai de Capitu tivera uma ocupação de rendimentos modestos. A mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se às despesas supérfluas, deu joias à mulher, nos dias de festa matava um leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz.
A condição e o lugar dessas personagens, recheadas de discursos e condutas contrastantes, não é questão de somenos. De início, essa condição suscita o riso dos leitores; mas, à proporção que o enredo avança, revela-se uma complexidade que merece atenção



