Mário Travassos, um almirante do Rio de Janeiro, foi um dos pioneiros na formulação da geopolítica brasileira. Ele argumentava que o Atlântico apresentava uma clara vantagem sobre o Pacífico em termos de fluxo comercial, enfatizando a superioridade dos portos brasileiros em comparação com o porto de Buenos Aires. Uma de suas principais preocupações era impedir a "argentinização" do Mato Grosso do Sul, considerando que a entrega do estado à Argentina comprometeria os interesses nacionais. Para ele, era crucial manter laços de amizade com Bolívia e Paraguai, a fim de isolar os interesses argentinos na região.
No pensamento de Travassos, as estradas que conectariam os países vizinhos aos portos do Atlântico brasileiro desempenhavam um papel central. Ele via o Mato Grosso do Sul como o coração do Brasil, capaz de servir como uma plataforma estratégica para o comércio. Em seus escritos, Travassos mencionava que até então a percepção sobre o Mato Grosso era negativa, com ênfase em seu baixo índice demográfico e na dissociação entre suas partes. Contudo, ele destacava que o estado era uma "miniatura do próprio país", representando os interesses políticos brasileiros no continente.
Travassos defendia que o Sul do Mato Grosso deveria ser a futura plataforma de transporte para o que viesse da Bolívia e do Paraguai, facilitando o comércio. Ele compreendia as dificuldades enfrentadas por esses países para acessar mercados europeus, tendo em vista que o foco maior era comercializar com a Inglaterra. Sua ideia de construir ferrovias ligando o comércio a esses países visava tornar a viagem de Buenos Aires às terras bolivianas mais rápida, levando apenas dois dias e meio, um feito que não era possível a partir de São Paulo ou Rio de Janeiro.
Além disso, ele alertava sobre o imperialismo ferroviário argentino em relação à Bolívia, o que exigia uma estratégia contrária que incluísse estradas ligando os dois países. As tensões na região se intensificaram com a eclosão da Guerra do Chaco, entre 1932 e 1935, onde Brasil e Argentina, apesar de formalmente neutros, se posicionaram em lados opostos. A Argentina apoiava o Paraguai com investimentos e logística, enquanto o Brasil, de maneira mais discreta, favorecia a Bolívia. Esse cenário gerou a possibilidade de um confronto militar entre Brasil e Argentina, levando os militares brasileiros a adotar as ideias de Travassos sobre a importância do Mato Grosso do Sul e da construção de estradas na região.




