Nas últimas semanas, um movimento de estudantes e jovens tem tomado as ruas de várias cidades da Índia, protestando contra o sistema nacional de exames, que é alvo de críticas devido a vazamentos, fraudes e desigualdades. O movimento, que recebeu o nome de "baratas" ("cockroaches") — inicialmente uma ofensa utilizada nas redes sociais para desqualificar os manifestantes — foi ressignificado pelos próprios jovens, que adotaram o termo como uma forma de identidade política. A lógica por trás dessa apropriação é clara: mesmo quando tentam eliminá-las, as "baratas" sempre retornam.
O impacto desses protestos foi significativo, levando o primeiro-ministro Narendra Modi a aceitar a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, e a se comprometer a implementar mudanças estruturais no sistema de exames. Esse movimento é especialmente notável em uma democracia de grandes dimensões, onde o Executivo costuma ser extremamente poderoso. A decisão de Modi enfatiza que, mesmo em governos que possuem uma base majoritária, a confiança da sociedade é um elemento essencial para a sua legitimidade.
Exemplos históricos ajudam a contextualizar esse fenômeno. Em maio de 1968, Na França, um movimento inicialmente centrado em reivindicações estudantis se expandiu rapidamente, culminando na maior greve geral da história francesa, com a adesão de cerca de dez milhões de trabalhadores. Assim como os estudantes indianos, os jovens franceses buscavam ser ouvidos e não apenas ocupar o poder.
No Brasil, em 1992, os caras-pintadas também se mobilizaram para exigir mudanças e a responsabilização de líderes políticos. Esses episódios, que ocorreram em diferentes contextos e países, revelam que os jovens não estão apenas em busca de poder, mas desejam que suas vozes sejam consideradas nas decisões políticas. Essa distinção é crucial para entender a natureza dos movimentos que realmente provocam mudanças duradouras.
O que esses movimentos têm em comum é a insistência de que a política não pode se restringir ao processo eleitoral; a legitimidade deve ser constantemente reforçada pela confiança da população. A lição deixada pelos jovens indianos, pelos estudantes de 1968 Na França e pelos caras-pintadas no Brasil é clara: uma democracia não se mantém viva se a juventude não acredita que suas demandas serão ouvidas.
Governos e líderes podem mudar ao longo do tempo, mas a história demonstra que sempre que uma geração decide que não aceitará mais o status quo, a política será forçada a se adaptar a essa nova realidade. A mobilização juvenil é um sinal de que a sociedade está atenta e disposta a lutar por mudanças, reafirmando a importância de continuar a escutar as vozes que representam o futuro.




