Após uma denúncia recente de intolerância religiosa, praticantes de diversas religiões de matriz africana se reuniram no bairro Parque do Lageado, em Campo Grande, para protestar contra o preconceito. O pai de santo Paulo Henrique da Silva, que denunciou o caso, foi um dos principais articuladores do ato. O babalorixá Augusto de Logunedé, presidente do Instituto Yalodê e organizador da manifestação, destacou que a situação enfrentada por Paulo é um reflexo do cotidiano de muitos praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda.
Augusto relatou que, frequentemente, cultos são interrompidos e que já houve casos alarmantes, como uma moradora que ameaçou incendiar a casa de outra por conta de um despacho. Ele enfatizou que os rituais, que incluem a oferta de alimentos como farofa de dendê e mel, visam proteção e bênçãos, e não são ataques a ninguém. "As pessoas, sejam evangélicas ou de qualquer outra religião, precisam aprender a respeitar a crença alheia", afirmou Augusto, ressaltando que o povo do Axé cultua orixás e entidades ancestrais brasileiras.
A mãe de santo Iyalorixá Janayna de Obaluaê também participou da manifestação e compartilhou sua experiência em lidar com o preconceito. Ela observou que, embora tenha mais facilidade para enfrentar essas situações devido à sua vivência, os mais jovens que estão iniciando na religião frequentemente sofrem discriminação. "O bullying é constante. As pessoas nos veem como monstros e afirmam que sacrificamos animais, o que não é verdade. Cultuamos uma religião de matriz afro-brasileira", explicou.
Janayna ressaltou que a intolerância religiosa se manifesta em diversas situações do cotidiano, desde a busca por serviços públicos até a rotina em supermercados. "Quando precisamos de atendimento na saúde pública, muitas vezes somos olhados de forma diferente e percebemos que outros têm preferência. Recentemente, meus filhos foram desrespeitados em um supermercado, quando um atendente passou com o carrinho por cima deles", relatou. Ela também mencionou que a discriminação muitas vezes começa pela vestimenta, já que os praticantes usam roupas brancas para simbolizar a paz.
No dia 3 de junho, Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, formalizou uma denúncia à polícia após ser abordado pelo pastor Sérgio Britto, da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora. O pastor teria realizado declarações pejorativas sobre a Umbanda, afirmando que “todo macumbeiro, feiticeiro e umbandeiro vai ser julgado e vai parar no inferno”. Durante a abordagem, ele ainda recitou trechos bíblicos em frente à residência de Paulo, perturbando a tranquilidade familiar. O pai de santo registrou um boletim de ocorrência e está buscando assessoria jurídica para tomar as medidas legais cabíveis.




