Em 1974, o Haiti fez sua estreia na Copa do Mundo, realizada na então Alemanha Ocidental, em uma campanha que mesclou momentos de emoção e desespero. O país, que apenas participava de seu , viu Emmanuel Sanon marcar um gol histórico, abrindo o placar contra a poderosa seleção da Itália. A partida começou de maneira surpreendente, com Sanon driblando a defesa italiana e anotando o primeiro gol, interrompendo uma sequência de 1.143 minutos sem que o goleiro Dino Zoff fosse vazado. Este momento se tornaria o auge da história do futebol haitiano, mas rapidamente se transformou em um pesadelo.
Após a virada da Itália, que terminou a partida em 3 a 1, o clima de tensão aumentou. Ernst Jean-Joseph, zagueiro da seleção, foi convocado para um teste de doping, que revelou a presença de um estimulante em seu organismo. Embora tenha alegado que utilizava medicação para asma, a defesa médica do atleta foi rapidamente desmentida. A situação se agravou quando agentes do regime de Jean-Claude Duvalier, o conhecido Baby Doc, invadiram a concentração da seleção, levando Jean-Joseph à força e agredindo-o antes de enviá-lo de volta ao Haiti.
O clima de medo tomou conta do grupo. Fritz Plantin, companheiro de equipe, recordou que a equipe passou a noite anterior ao jogo contra a Polônia em total desespero, preocupado com o destino de Jean-Joseph. Em campo, a equipe não conseguiu se concentrar e sofreu uma pesada derrota, com um placar de 7 a 0. O temor que permeava a seleção era tão intenso que, antes do último jogo, o ditador ordenou que Jean-Joseph fizesse uma chamada para a delegação, apenas para garantir que ainda estava vivo.
Na última partida, o Haiti enfrentou a Argentina, perdendo por 4 a 1, encerrando sua participação na Copa. A história da seleção naquele torneio se transformou em uma das mais surrealistas da Copa do Mundo, onde os jogadores haitianos, em vez de se preocupar com táticas ou estratégias, lutavam para garantir sua própria segurança ao retornar para casa.
Apesar das derrotas, o Haiti deixou sua marca em 1974. Emmanuel Sanon, além de ser o autor do gol que fez história, se tornou o único haitiano a balançar a rede em Copas do Mundo por mais de cinquenta anos. O torneio, embora tenha sido um desastre em termos de resultados, garantiu ao país um lugar na memória do futebol mundial.
Para contextualizar, na época da estreia do Haiti na Copa, Richard Nixon era o presidente dos Estados Unidos, o Muro de Berlim ainda existia e Pelé já havia se aposentado da seleção brasileira. Décadas se passaram até que o Haiti voltasse a ter uma nova chance de se apresentar em um Mundial, agora sem a opressão de um regime autoritário pressionando seus atletas.




