Mato Grosso do Sul se destaca como um dos estados mais violentos para a população indígena no Brasil, conforme os dados do Atlas da Violência, divulgados nesta terça-feira (26). Os números, que abrangem o período de 2014 a 2024, revelam que, apesar de pequenas melhorias em alguns indicadores ao longo da última década, o estado ainda apresenta taxas alarmantes de homicídios e suicídios. A pesquisa mostra que a violência contra os indígenas no Brasil possui características distintas, relacionadas mais a conflitos territoriais e pressões sobre terras do que ao crime organizado.
O estado figura entre os mais críticos do país, ao lado de Amazonas, Roraima e Rio Grande do Sul. Mesmo com uma leve redução nos índices de homicídios nos últimos anos, os números continuam elevados. A taxa de homicídios em Mato Grosso do Sul era de 348,2 por 100 mil habitantes em 2014, alcançando o pico de 470,5 em 2016. Embora tenha caído para 122,8 em 2024, esse índice permanece muito acima da média nacional, que é de 27,3. Em termos absolutos, foram registrados 34 homicídios no estado no último ano.
O Atlas da Violência destaca um paradoxo preocupante: a redução relativa dos homicídios ocorre em um contexto de violência crônica, onde, mesmo com avanços, o risco de vitimização entre a população indígena ainda se mantém elevado. No ranking nacional de homicídios indígenas, Mato Grosso do Sul ocupa a terceira posição em 2024, atrás do Amazonas, que registrou 73 homicídios, e de Roraima, com 60.
A situação dos suicídios entre indígenas é ainda mais alarmante. Mato Grosso do Sul apresenta a maior taxa de suicídio indígena do Brasil, com 151,8 mortes por 100 mil habitantes em 2024. Este índice é aproximadamente sete vezes maior que a média nacional para a população indígena e quase 20 vezes superior ao da população brasileira em geral. Em números absolutos, foram contabilizadas 42 mortes no estado no último ano. Embora o Amazonas tenha o maior número total de suicídios, com 83 casos, isso se deve ao tamanho da sua população indígena.
Fatores estruturais, como conflitos históricos sobre terras, confinamento territorial e pressão sobre modos de vida tradicionais, agravam a situação. Esses elementos contribuem para o sofrimento psicossocial e ajudam a explicar a alta taxa de suicídios entre os povos indígenas, especialmente na região Centro-Oeste do Brasil. Os dados sugerem que, mesmo com variações ao longo da década, a violência contra os indígenas permanece fortemente ligada a desigualdades históricas e à falta de proteção territorial.
O relatório conclui que há uma "recomposição da desigualdade letal", onde, apesar de algumas melhorias em certos indicadores, os índices continuam elevados nas regiões mais vulneráveis, evidenciando a persistência de estruturas históricas de exclusão. De forma abrangente, o estudo enfatiza que o enfrentamento da violência contra as populações indígenas requer políticas públicas específicas, que considerem a abordagem territorial, promovam a interculturalidade e garantam a participação direta das comunidades, já que soluções universais têm se mostrado insuficientes para resolver essa complexidade.




