O discurso é conhecido, quase um clichê repetido todos os anos: mulheres são sinônimo de força, coragem e luta. Mas para muitas delas, a luta foi a única opção que restou para a sobrevivência. A pescadora Maria Antônia Poliano é um exemplo disso. Nascida em Glória de Dourados, ela conta que a infância não foi fácil. Ainda muito jovem, antes mesmo de completar 12 anos, foi obrigada a casar e fugiu de casa para viver com um homem, de 26 anos. "Eu fiquei com ele até os 19 anos, até eu pegar maioridade e larguei dele", lembrou.
Maria Antônia precisou abandonar a escola e aprender a pescar para sobreviver. "Ele era alcoólatra e não trabalhava. Para poder sobreviver, eu fui obrigada a aprender a pescar, saí da escola, não estudei mais. Meu diploma foi um casal de filhos. O carinho que eu tinha era uma surra de manhã, outra à tarde", contou. A primeira filha nasceu quando Maria tinha apenas 15 anos. Mesmo enfrentando agressões constantes e pressão para interromper a gravidez, ela decidiu levar a gestação adiante. Dois anos depois, nasceu o segundo filho, quando ela tinha entre 17 e 18 anos.
A pesca foi a única fonte de renda da família por muitos anos. Na época, os rios eram muito mais fartos. "Pintado, pacu, dourado, a gente vendia por 60 centavos o quilo. Tinha muito peixe, não tinha essa degradação que tem hoje. Isso era quando eu tinha entre 12 e 20 anos", relatou. Agora, vai para o rio pescar de 6 a 7 vezes por ano. De acordo com Maria, o quilo do pintado, por exemplo, é vendido por 50 reais, 60 reais, dependendo da época.
Entre os episódios que marcaram sua vida, Maria Antônia lembra de um acidente no Rio Miranda. Grávida de seis meses da filha, navegava em uma canoa a remo, quando a embarcação virou em uma corredeira. "A canoa tombou nas águas do Miranda e eu fiquei imprensada embaixo dela. Meu irmão vinha atrás com a canoa cheia de peixe e conseguiu me tirar", recordou. Depois de deixar o relacionamento abusivo, ela montou um barraco na beira do Rio Miranda, no km 21, onde passou a viver com os filhos. Ficou ali por anos, pescando para sustentar a família.




