O auto-perdão é difícil porque exige que a gente se sente diante de si mesmo sem defesas, sem justificativas bonitas, sem as histórias que contamos para o mundo para parecer mais forte, mais certo, mais inteiro do que realmente somos.
Perdoar outra pessoa, muitas vezes, ainda permite que a gente mantenha uma certa distância da dor, porque o erro está do lado de fora. Mas o auto-perdão é um mergulho. É olhar para dentro e reconhecer que, em algum momento, fomos a pessoa que feriu, que falhou, que escolheu mal, que não soube amar, que não soube esperar, que não soube partir na hora certa ou ficar quando era necessário.
O processo de cura começa justamente onde a gente mais resiste: no reconhecimento. Não existe cura sem verdade. E a verdade raramente é confortável. A cura pede que a gente revisite momentos que gostaria de apagar, que encare versões antigas de si mesmo que hoje parecem quase irreconhecíveis.
Curar dói porque cura não é apagar, é integrar. É aceitar que aquele erro faz parte da história, mas não precisa definir o resto dela. Só que aceitar isso exige abandonar uma ilusão muito sedutora: a de que, se a gente se punir o suficiente, talvez consiga compensar o que fez.




