A menos de dois meses para o início da Copa do Mundo de 2026, o México atravessa um período repleto de incertezas. O aumento da violência, com incidentes em locais turísticos e conflitos entre cartéis, aliada a atrasos significativos nas obras de infraestrutura e a iminência de protestos, coloca em xeque a realização do evento.
Recentemente, um ataque a tiros no complexo arqueológico de Teotihuacán resultou em mortos e feridos, desafiando a percepção de que a violência estava restrita a áreas de disputa entre organizações criminosas. A morte de líderes do narcotráfico gerou uma onda de bloqueios e mortes em várias regiões, intensificando o ceticismo sobre a capacidade do governo de assegurar a segurança de turistas e seleções durante a Copa.
O país enfrenta uma corrida contra o tempo para finalizar as obras essenciais. A passarela que conecta o Estádio Azteca ao terminal de Huipulco apresenta atrasos e seu custo foi mais que dobrado. Além disso, o Estádio Azteca, que sediará a partida de abertura em 11 de junho, ainda possui tribunas inacabadas e trabalhos externos em andamento, após ter permanecido fechado por quase dois anos para reformas que suscitaram críticas.
Diversos grupos sociais ameaçam realizar paralisações em vias importantes durante o evento. Profissionais do sexo, que foram deslocados devido às obras na capital, prometem bloquear avenidas e o metrô. Ao mesmo tempo, o sindicato nacional dos trabalhadores da educação ameaça interromper rodovias e cercar estádios caso suas demandas trabalhistas não sejam atendidas, criando um ambiente de instabilidade para o fluxo de pessoas nas cidades-sede.
Especialistas apontam que o fenômeno conhecido como 'sportswashing' — que consiste em utilizar eventos esportivos para melhorar a imagem de um país — pode ter eficácia limitada no contexto mexicano. Ao contrário de regimes autoritários como o Catar ou a China, o México é uma democracia plural, onde a presença de grupos armados não estatais dificulta o controle total da narrativa pelo governo, expondo problemas reais de criminalidade e desordem em escala global.
A situação também levanta preocupações geopolíticas. A demonstração de poder dos cartéis e a perturbação da ordem pública podem comprometer a imagem do governo mexicano perante a comunidade internacional. Neste cenário, os Estados Unidos têm sinalizado a intenção de ampliar sua influência na região, inclusive classificando organizações criminosas como terroristas, o que poderia servir como justificativa para pressões ou intervenções em nome da segurança regional.




