Os documentos, manuscritos e textos de Luiz Gama, um importante abolicionista brasileiro, foram submetidos à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) com o objetivo de serem reconhecidos como Patrimônio Documental da Humanidade. A candidatura foi oficializada no dia 26 de novembro de 2025, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Arquivo Nacional, e está concorrendo ao edital do Programa Memória do Mundo, com resultado previsto para ser divulgado no final de 2027 durante a Conferência Geral da Unesco.
Luiz Gama, que figura no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, é conhecido por ter libertado mais de 500 pessoas escravizadas por meio de sua atuação jurídica. Nascido livre, ele foi vendido como escravo por seu pai e aprendeu a ler e escrever aos 17 anos. No entanto, enfrentou barreiras raciais que o impediram de se formar em Direito. Apesar disso, Gama frequentou aulas como ouvinte e se tornou rábula, permitindo-lhe atuar nos tribunais.
A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), Lígia Fonseca Ferreira, destacou em entrevista que Gama se diferencia de outros abolicionistas por ter vivenciado a escravidão. Ela observou que sua escrita e seu engajamento na luta pela libertação de indivíduos refletiam um entendimento profundo das experiências das pessoas com quem interagia.
Gama tentou ingressar na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em 1850, mas, por ser negro, foi impedido. A partir dos anos 1860, ele começou a advogar em primeira instância, dedicando sua carreira à defesa da libertação e identificação de escravizados. Essa atuação foi fundamental para a candidatura que, em 2025, recebeu o registro do Comitê Regional para a América Latina e o Caribe (MoWLAC) da Unesco, e agora serve como base para a candidatura mundial.
O reconhecimento dos documentos de Gama pela Unesco é significativo para o Brasil, pois seria a primeira vez que uma obra abolicionista do país, que teve a maior quantidade de pessoas escravizadas no mundo, seria incluída nesse seleto grupo. A obra abolicionista é vista como uma afirmação da liberdade e da igualdade, em um país que historicamente enfrentou desigualdades e violências.
Bruno, autor de "Luiz Gama contra o Império: a luta pelo direito no Brasil da Escravidão" e organizador dos 11 volumes das Obras Completas de Luiz Gama, também ressaltou a importância desse reconhecimento. Em 2024, ele foi agraciado com o Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria Direito, pelo volume "Direito, 1870-1875", que faz parte das Obras Completas de Gama.




