A fé religiosa pode ter um impacto positivo na saúde mental, atuando como um fator protetor contra transtornos de ansiedade em crianças e adolescentes, conforme aponta um estudo publicado na revista Developmental Science. A pesquisa, realizada por Leonard Konstantin Kulisch, Ana Lorena Domínguez Rojas, Silvia Schneider e Babett Voigt, investiga a relação entre as prioridades sociais, como independência e comunidade, e as taxas de ansiedade ao longo de um período de 1989 a 2022.
Os pesquisadores analisaram dados da Pesquisa Mundial de Valores, do estudo Global Burden of Disease, do Relatório de Desenvolvimento Humano e do estudo Future of Families and Child Wellbeing. Os resultados revelaram que sociedades que valorizam a independência tendem a apresentar taxas mais elevadas de ansiedade, especialmente em países classificados como WEIRD (Ocidentais, Educadas, Industrializadas, Ricas e Democráticas). Em contrapartida, uma forte ênfase na fé religiosa e na interdependência está associada a índices mais baixos de transtornos de ansiedade, conforme evidenciado em 70 nações estudadas.
Embora o estudo não tenha comparado diretamente grupos de indivíduos religiosos e não religiosos ou países em particular, as análises indicam que, em nações onde a importância da fé na educação das crianças diminuiu, houve um aumento nos níveis de ansiedade juvenil. Brandon Vaidyanathan, professor de sociologia da Universidade Católica da América, destaca que a ênfase em normas religiosas é crucial para a saúde mental dos jovens.
Nas sociedades WEIRD, a prevalência de normas voltadas para a independência foi associada a um aumento nos transtornos de ansiedade. No entanto, essa correlação não foi observada em países que não se encaixam nessa classificação. Em sociedades em desenvolvimento, a transição para um modelo mais independente pode trazer ganhos em termos de crescimento e qualidade de vida, embora possa também acarretar custos psicológicos.
O conceito de 'estruturas de plausibilidade', desenvolvido por Peter Berger, sugere que a religião pode reduzir a ansiedade enquanto a sociedade em geral aceita suas premissas. Caso essa aceitação diminua, a religião pode se tornar apenas uma entre muitas opções, tornando-se insuficiente para proteger crianças em ambientes menos favoráveis à fé. Assim, as normas comunitárias e a religiosidade coletiva se tornam mais relevantes do que as crenças individuais de uma família.
Esses achados ressaltam a importância da fé religiosa na socialização e suas implicações para a saúde mental, abrindo um campo de estudo que pode influenciar políticas públicas e práticas educacionais até 2026.




