Os transtornos de ansiedade foram identificados como a principal causa de incapacidade entre crianças brasileiras de 5 a 9 anos, superando condições físicas nessa faixa etária. A conclusão é parte de uma análise sobre a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens, divulgada em 5 de outubro de 2023. A pesquisa foi publicada na revista científica The Lancet Regional Health – Americas e utilizou dados do Estudo da Carga Global de Doenças (GBD) de 2023.
Estima-se que mais de 15 milhões de brasileiros, com idades entre 5 e 29 anos, convivam com ao menos um transtorno mental, o que representa 20,91% dessa população. Além disso, 2,5 milhões de pessoas, ou 3,36% do total, apresentam transtornos relacionados ao uso de álcool ou outras substâncias. O estudo, liderado pelo psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital Moinhos de Vento, segmentou os dados em intervalos de cinco anos, revelando que os problemas de saúde mental variam conforme a idade, o que demanda estratégias de atendimento diferenciadas.
Entre as crianças de 5 a 9 anos, mais de 10% apresentam critérios que indicam algum transtorno mental. Essa proporção aumenta nas faixas etárias seguintes, chegando a quase 25% entre os jovens de 25 a 29 anos. Na infância, é comum que os problemas estejam relacionados à separação dos pais ou responsáveis. Durante a adolescência, as dificuldades de interação social se tornam mais evidentes, enquanto, na fase inicial da vida adulta, os quadros de ansiedade generalizada e crises de pânico aparecem com maior frequência.
A pesquisa aponta que, a partir dos 15 anos, a ansiedade e a depressão ocupam as duas principais posições entre as causas de incapacidade. O impacto desses transtornos é mais significativo entre meninas e mulheres. Nos homens, os transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas se tornam mais prevalentes a partir dos 20 anos. A divisão dos serviços de saúde mental com base na maioridade também é alvo de críticas, uma vez que, ao completar 18 anos, os pacientes são transferidos da rede voltada para crianças e adolescentes para os serviços destinados a adultos.
Os autores do estudo reconhecem a necessidade de pesquisas locais mais abrangentes, mas enfatizam que a falta de dados não deve ser uma justificativa para adiar a implementação de políticas públicas. Entre as medidas sugeridas estão a identificação precoce de sinais de sofrimento, a oferta de atendimento para casos leves e moderados, além da criação de portas de entrada que vão além dos serviços especializados. As escolas são destacadas como locais cruciais para identificar mudanças de comportamento e encaminhar alunos, embora os pesquisadores ressaltem que a responsabilidade não deve recair apenas sobre professores e gestores, mas também sobre as redes de saúde e assistência social.
A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) é considerada mais preparada para atender pacientes em situações graves, o que pode ser inadequado para crianças e jovens que ainda estão nas fases iniciais de seus problemas. O estudo também recomenda maior clareza sobre a alocação dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) voltados à saúde mental e a inclusão mais direta do tema nas políticas públicas direcionadas à infância e juventude.




