Durante a juventude, costumava sair bastante, dirigindo meu Uno Mille, que não possuía retrovisor do lado direito, um item considerado opcional na época. Com frequência, voltava para casa de madrugada, ou até decidia passar a noite na casa de amigas, o que não deixava minha mãe muito feliz, mas ela não perdia o sono com isso. Em algumas ocasiões, voltei dirigindo sob efeito de álcool, mas, felizmente, não havia bafômetros disponíveis na época.
Com o passar dos anos, construí minha vida, casei, tive um filho e até escrevi um livro. Aos 40 anos, após uma separação, resolvi reviver algumas memórias e fui a um forró numa quarta-feira, dia em que meu filho estava com o pai. Para minha surpresa, minha mãe tentou me desestimular de várias maneiras. Primeiro, convidou-me para passar a noite em sua casa, depois sugeriu um jantar em um restaurante que adoro, mas recusei ambas as propostas.
Quando percebeu que não iria me convencer, fez previsões negativas: “Quero ver você ir nesse forró às 22h. Vai cair de sono”, e emendou com preocupações sobre segurança, mencionando a boate Kiss. Tentou argumentar que a cidade estava cheia de blitz da Lei Seca, mesmo eu não bebendo álcool há 15 anos. Também levantou questões sobre saúde, insinuando que um lugar como aquele poderia ser perigoso em tempos de Influenza.
O detalhe é que eu usaria o carro dela, que é mais seguro do que o meu. Fiz um plano para chegar rapidamente, evitando que ela tentasse me dissuadir mais uma vez. Ao chegar, ela me cumprimentou de maneira amigável, mas logo em seguida fez um alerta sobre os perigos da cidade, como se São Paulo fosse a mesma de duas décadas atrás. Com isso, acabei indo ao forró, mas a preocupação dela não diminuiu. No caminho, percebi que, ao mesmo tempo que dirigia, também estava enviando atualizações sobre minha localização, uma prática que não fazia sentido, já que ela me acompanhava pelo GPS.
Ser mãe é um desafio constante. Meu filho tem 13 anos e, com isso, já começo a contar as noites tranquilas que ainda terei, que não são muitas. Minha mãe, ao final, percebeu que a filha de 40 anos pode se cuidar sozinha, mesmo sem companhia no carro. Também reconheci que, apesar das reclamações, ter uma mãe que se preocupa e cuida de nós é um verdadeiro privilégio, mesmo que agora eu precise de óculos de farmácia para ler o programa do teatro.




