Refletir sobre futebol após uma eliminação da seleção brasileira é uma tarefa repleta de riscos, uma vez que o tema evoca emoções intensas e pouco espaço para análises racionais. Cada torcedor possui seu diagnóstico, um culpado favorito e uma convicção sólida sobre o que deveria ter acontecido. Essa paixão pelo esporte muitas vezes leva a um desejo de atuar como técnico da seleção, o que torna a discussão ainda mais complexa.
Além disso, há o desafio de não transformar uma análise que deveria focar em economia, direito e instituições em um mero debate sobre táticas e escalações. O objetivo é abordar o futebol por uma perspectiva diferente, a da Nova Economia Institucional. Economistas como Douglass North destacaram que as instituições são, em essência, as regras que moldam o jogo. Elas organizam incentivos, coordenam comportamentos e influenciam a probabilidade de certos resultados. Frequentemente, o futebol é utilizado para ilustrar esse conceito, mas talvez seja o momento de inverter a analogia e usar as instituições para entender o próprio futebol.
Quando falamos em regras no esporte, frequentemente pensamos apenas nas que são aplicadas em campo, como impedimentos, faltas e o VAR. No entanto, essas normas são semelhantes para todos os times e não explicam a razão pela qual alguns países mantêm um desempenho competitivo ao longo das décadas, enquanto outros alternam entre sucesso e frustração.
As regras que realmente fazem a diferença raramente são evidentes durante as partidas. Elas se estabelecem muito antes do início do jogo, abrangendo a formação das categorias de base, a qualificação dos treinadores, a governança das federações e os critérios de convocação. Além disso, a integração entre clubes e seleção, a preparação física e psicológica dos atletas, e a utilização de ciência de dados são aspectos cruciais. A construção das condições que possibilitam a vitória exige um planejamento que se estende por décadas.
O anseio pelo hexa permanece vivo, com a meta de conquistar o título até 2030 e, possivelmente, além. Contudo, a questão mais relevante a ser considerada não é quem será o próximo a vestir a camisa 10 da seleção, mas sim: que regras estamos estabelecendo hoje para garantir que o talento brasileiro volte a render resultados extraordinários de forma consistente no futuro?
Luciana Yeung, Professora Associada e Coordenadora do Núcleo de Law & Economics do Insper, é membro-fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE). Ela também atua como pesquisadora-visitante na Law and Economics Foundation, na Universidade de St Gällen, na Suíça, e no Institute of Law and Economics, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Yeung é autora de várias publicações, incluindo “O Judiciário Brasileiro – uma análise empírica e econômica” e “Curso de Análise Econômica do Direito”, em coautoria com Bradson Camelo. Em junho de 2026, recebeu a “Medalha ALACDE” em reconhecimento por sua contribuição à divulgação do conhecimento científico em Direito e Economia na América Latina.




