O professor Pery Shikida, com 25 anos de pesquisa sobre criminalidade sob a perspectiva econômica, destaca que as fronteiras de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia se transformaram em centros operacionais do crime organizado. Essas regiões são responsáveis pela maior parte da cocaína que entra no Brasil, funcionando como estruturas empresariais que lidam com perdas de maneira similar a grandes conglomerados do mercado formal.
Na visão de Shikida, as organizações criminosas não se restringem apenas ao tráfico de drogas. Elas expandiram suas atividades para incluir contrabando, descaminho, roubo de cargas, lavagem de dinheiro, mineração ilegal, exploração ambiental e comércio ilegal de combustíveis, cigarros e armas. Esse portfólio diversificado permite que as facções compensem perdas em uma área com os lucros obtidos em outras, o que dificulta que uma grande apreensão financeira desestabilize suas operações.
A lógica do crime, segundo o economista, é essencialmente empresarial, focando na diversificação de receitas e na diluição de riscos. Apesar de apreensões recordes de cocaína representarem perdas significativas, elas raramente conseguem desarticular organizações como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), que controlam extensas áreas entre Brasil, Bolívia e Paraguai. Para Shikida, essas facções evoluíram de grupos especializados em um único tipo de crime para conglomerados econômicos ilícitos, geridos com a mesma racionalidade de grandes empresas.
O pesquisador aponta que, enquanto o Estado combate mercados separados, o crime organizado gerencia um conglomerado de atividades altamente lucrativas. A análise de Shikida revela a complexidade da luta do Estado contra uma estrutura criminosa que se tornou um fenômeno econômico. Ele argumenta que o combate às facções deve ser baseado em uma política permanente, integrada e suprapartidária, já que ações pontuais ou operações espetaculares não trarão resultados duradouros enquanto o ambiente econômico que sustenta essas organizações permanecer intacto.
Mato Grosso do Sul ocupa uma posição estratégica devido à sua extensa fronteira com Paraguai e Bolívia, características que favorecem a logística das organizações criminosas. Essas facções são capazes de redistribuir perdas sem comprometer sua saúde financeira. A principal conclusão de Shikida é de que a criminalidade no Brasil deixou de ser um problema exclusivo da polícia e se tornou um fenômeno econômico. Sem enfrentar essa realidade de forma estrutural, o Estado continuará a lidar com crimes isolados, enquanto as facções prosperarão em um modelo de negócios integrado, altamente rentável e adaptável às ações repressivas.




