A Venezuela enfrenta uma crise interna sem precedentes, cinco meses após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA. A líder interina Delcy Rodríguez tem enfrentado críticas severas de setores radicais do chavismo, especialmente por sua decisão de permitir exercícios militares americanos em Caracas e por buscar uma aproximação diplomática com Washington.
Desde que assumiu o comando após a prisão de Maduro em janeiro, Delcy Rodríguez implementou mudanças significativas na política do país. Entre as medidas, estão o restabelecimento de voos diretos entre Miami e Caracas, a reabertura da embaixada americana e a autorização para que empresas de petróleo operem sob a supervisão dos EUA. Recentemente, a líder interina autorizou um exercício militar dos fuzileiros navais americanos em solo venezuelano, uma prática que era considerada inaceitável durante o governo de Hugo Chávez e de Maduro.
As críticas a Rodríguez vêm de figuras influentes do movimento chavista, como a deputada Iris Varela e a ex-ministra Mary Pili Hernández. Elas acusam a líder interina de traição e de se submeter aos interesses dos EUA. Varela, em particular, insinuou que a captura de Maduro foi facilitada por uma infiltração interna, usando a expressão 'todo Cristo tem um Judas' para expressar descontentamento com as concessões recentes do governo interino.
Especialistas observam que o racha no chavismo não se limita a divergências ideológicas, mas envolve uma luta pelo poder e pela sobrevivência financeira. Enquanto Delcy busca estabilizar a economia ao reatar laços com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e os EUA, setores mais radicais e militares, que se beneficiaram de esquemas ilícitos, temem perder sua proteção. A retórica do 'inimigo externo', representado pelos EUA, era um elemento unificador do grupo; sem essa narrativa, a proteção do regime contra crises se torna vulnerável.
A divisão interna do chavismo abre uma oportunidade para a oposição. Maria Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, classifica o governo de Delcy como insustentável e busca se posicionar como uma interlocutora para uma transição democrática. A oposição agora se concentra em exigir reformas no Conselho Nacional Eleitoral e o fim das punições políticas, visando a realização de eleições presidenciais livres e justas, com a supervisão internacional.
O cenário, no entanto, apresenta riscos elevados. Apesar das reformas promovidas por Delcy no Ministério da Defesa e da troca de comando das tropas para afastar aliados de Maduro, muitos oficiais de médio escalão ainda se sentem ameaçados pelas novas diretrizes. Se esses militares perceberem que sua segurança financeira ou liberdade está em risco devido à aproximação com os americanos, há o potencial para tentativas de motins ou contragolpes localizados, visando retomar o controle do país.




