O transtorno bipolar é uma condição que pode levar entre 6 e 10 anos para receber um diagnóstico preciso, conforme apontam especialistas da área. A identificação tardia é atribuída a diversos fatores que dificultam a detecção correta, especialmente pelo fato de que os primeiros sinais frequentemente se assemelham a outros transtornos mentais.
A psiquiatra Sheila Caetano, professora da Unifesp, aponta que um dos principais motivos para a demora no diagnóstico é que o transtorno bipolar geralmente se manifesta inicialmente como um episódio depressivo. "O primeiro episódio costuma aparecer como depressão. Assim, o tratamento é iniciado como se fosse uma depressão simples, quando na verdade pode ser o início de um quadro bipolar com episódios depressivos", explica.
Esse cenário resulta em um tratamento inadequado, visto que a abordagem terapêutica para a depressão bipolar é distinta daquela aplicada à depressão comum. A psiquiatra ressalta que "é uma depressão que pode não responder ao tratamento, apresentando um caráter crônico, e que pode ser classificada como depressão bipolar, que ocorre juntamente com hipomania ou mania".
Outra questão que contribui para a confusão no diagnóstico é a semelhança dos sintomas do transtorno bipolar com outros quadros psiquiátricos, especialmente os transtornos de ansiedade. Sheila Caetano destaca que existem diferenças significativas entre eles: "Na mania, o pensamento acelera, mas para tanto para situações positivas quanto negativas, e a pessoa não sente cansaço, pois está cheia de energia".
O uso de substâncias psicoativas também pode dificultar a identificação do transtorno. A psiquiatra menciona que drogas como cocaína e êxtase podem imitar sintomas de mania, como aumento de energia e libido. "Após o uso dessas substâncias, a pessoa pode continuar a sentir-se energizada e impulsiva, confundindo os efeitos da droga com um quadro de mania", alerta.
Além disso, Sheila Caetano destaca que cerca de 30% dos indivíduos com transtorno bipolar tipo 1 apresentam um risco elevado de desenvolver dependência de álcool ou outras drogas, criando um ciclo que complica ainda mais o diagnóstico. Durante episódios de mania, quando a pessoa se sente "poderosa", o uso de substâncias pode se intensificar, resultando em diagnósticos simultâneos.




